Eu falava no post sobre a música Karolina com K da criatividade do Luiz Gonzaga. Hoje recebi de presente uma música que não conhecia, no mesmo estilo “contador de estória”, em que Seu Lula fala do dia em que foi incubido pelo Capitão Balbino de encontrar a Parteira Samarica, porque a Dona Jovita ia parir.
Além da letra ser muito engraçada (deveria ser usada nas escolas para explicar o que é onomatopéia), o ritmo é incrível.
Samarica Parteira
Luiz Gonzaga
– Oi sertão!
– Ooi!
– Sertão do Capitão Barbino! Sertão dos cabra valente…
– Tá falando com ele!…
– …e dos cabra frouxo também.
– …já num tô dentro.
– Sertão das mulher bonita…
– Ôoopa!
– …e dos cabra feio também!
***
– Lula!
– Pronto, patrão.
– Monte na bestinha melada e risque. Vá ligeiro buscar Samarica parteira que Juvita já tá com dor de menino.
Ah, menino! Quando eu já ia riscando, Capitão Barbino ainda deu a última instrução:
– Olha, Lula, vou cuspir no chão, hein?! Tu tem que voltar antes do cuspe secar!
Foi a maior carreira que eu dei na minha vida. A eguinha tava miada.
Piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri… uma cancela: nheeeiim… pá!
Piriri piriri piriri piriri piriri piriri… outra cancela: nheeeiim… pá!
Piriri piriri piriri pir… Êpa! Cancela como o diabo nesse sertão: nheeeiim… pá!
Piriri piriri piriri piriri…
Um lajedo: patatac patatac patatac patatac patatac. Saí por fora!
Piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri…
Uma lagoa, lagoão: bluu bluu, oi oi, kik’ k’ - a saparia tava cantando.
Aha! Ah menino! Na velocidade que eu vinha essa égua deu uma freada tão danada na beirada dessa lagoa, minha cabeça foi junto com a dela! E o sapo gritou lá de dentro d’água: ói, ói, ói ele agora quase cai! Sapequei a espora pro suvaco no vazio dessa égua, ela se jogou n’água parecia uma jangada cearense: [bluu bluu, oi oi, kik’ k’] Tchi, tchi, tchi. Saí por fora.
Piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri… outra cancela: nheeeiim… pá!
Piriri piriri piriri piriri piriri piriri…
Um rancho, rancho de pobre…
- Au au!
Cachorro de pobre, cachorro de pobre late fino…
- Tá me estranhando, Cruvina?
Era Cruvina mermo. Balançou o rabo. Não sei porque cachorro de pobre tem sempre nome de peixe: é Cruvina, Traíra, Piaba, Matrinxã, Baleia, Piranha. Há! Magrinho mas caçadorzinho como o diabo! Cachorro de rico é gordo, num caça nada, rabo grosso, só vive dormindo. Há há… num presta prá nada, só presta prá bufar. Agora o nome é bonito: é White, Flike, Rex, Whiski, Jumm. Há! Cachorro de pobe é ximbica!
– Samarica, ooooh, Samarica parteeeeira!
Qual o quê, aquelas hora no sertão, meu filho, só responde se a gente der o prefixo:
– Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo!
– Para sempre seja Deus louvado.
– Samarica, é Lula… Capitão Barbino mandou ver a senhora que Dona Juvita já tá com dor de menino.
– Essas horas, Lula?
– Nesse instante! Capitão Barbino cuspiu no chão, eu tenho que voltar antes do cuspe secar.
Peguei o cavalo véio de Samarica que comia no murturo. Todo cavalo de parteira é danado prá comer no murturo, não sei porque. Botei a cela no lombo desse cavalo e acochei a cia, peguei a véia, joguei em riba, quase que ela imbica prouta banda.
– Vamos s’imbora, Samarica, que eu tô avexado!
– Vamo fazê um negócio Lula? Meu cavalinho é magro, sua eguinha é gorda, eu vou na frente.
– Que é que há, Samarica, prá gente num chegar hoje? Já viu cavalo andar na frente de égua, Samarica? Vamo s’imbora que eu tô avexado!
Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic… nheeeiim… pá!
Piriri tic tic piriri tic tic… bluu oi oi bluu oi, uu, uu… - ói, ói, ói ele já voltoooou!
Saí por fora.
Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic…
Patateco teco teco, patateco teco teco, patateco teco teco…
Saí por fora da pedreira.
Piriri piriri tic tic piriri tic tic… nheeeiim… pá!
Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic… nheeeiim… pá!
Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic… nheeeiim… pá!
Piriri piriri tic tic piriri tic tic…
– Uu uu.
– Tá me estranhando, Nero? Capitão Barbino, Samarica chegou.
– Samarica chegou!
***
Samarica sartou do cavalo véio embaixo, cumprimentou o Capitão, entrou prá camarinha, vestiu o vestido verde e amarelo, padrão nacional, amarrou a cabeça com um pano e foi dando as instrução:
– Acende um incenso. Boa noite, D. Juvita.
– Ai, Samarica, que dor!
– É assim mesmo, minha filha, aproveite a dor. Chama as muié dessa casa, pra rezar a oração de São Reimundo, que esse cristão vem ao mundo nesse instante. Boa noite, cumade Tota.
– Boa noite, Samarica.
– Boa noite, cumade Gerolina.
– Boa noite, Samarica.
– Boa noite, cumade Toinha.
– Boa noite, Samarica.
– Boa noite, cumade Zefa.
– Boa noite, Samarica.
– Vosmecês sabe a oração de São Reimundo?
– Nós sabe.
– Ah sabe, né? Pois vão rezando aí, já viu?
– Capitão Barbiiino! Capitão Barbino tem fumo de Arapiraca? Me dê uma capinha pra ela mastigar. Pegue Dona Juvita, mastigue essa capinha de fumo e não se incomode. É do bom! Aguenta nas oração, muiés! Mastiga o fumo, D. Juvita… Capitão Barbino, tem cebola do Cabrobró?
– Ai Samarica! Cebola não, que eu espirro.
– Pois é prá espirrar mesmo minha filha, ajuda.
– Ui.
– Aproveite a dor, minha filha. Aguenta nas oração, muiés. Mastigue o fumo, Dona Juvita.
– Capitão Barbiiino, bote uma faca fria na ponta do dedão do pé dela, bote. Mastigue o fumo, Dona Juvita. Aguenta nas oração, muiés.
– Ai Samarica, se eu soubesse que era assim, eu num tinha casado com o diabo desse véio macho.
– Pois é assim mesmo minha filha, vosmecê casou com o véinho pensando que ela num era de nada? Agora cumpra seu dever, minha filha. Desde que o mundo é mundo, que a muié tem que passar por esse pedacinho. Ai, que saudade! Aguenta nas oração, muiés! Mastigue o fumo, Dona Juvita.
– Ai, que dor!
– Aproveite a dor, minha filha. Dê uma garrafa pra ela soprar, dê. Ô muiés, hein? Essa é a oração de S. Reimundo, mesmo?
– É…
– Vosmecês num sabe outra oração?
– Nós num sabe…
– Uma oração mais forte que essa, vocês num têm?
– Tem não, tem não, essa é boa.
– Pois deixe comigo, deixe comigo, eu vou rezar uma oração aqui, que se ele num nascer, ele num tá nem cum diabo de num nascer: “Santo Antônio pequenino, amansador de burro brabo, fazei nascer esse menino, com mil e seiscentos diabo!”
[choro de criança]
– Nasceu e é menino homem!
– E é macho!
– Ah, se é menino homem, olha se é? Venha vê os documento dele! E essa voz!
Capitão Barbino foi lá detrás da porta, pegou o bacamarte que tava guardado a mais de oito dia, chegou no terreiro, destambocou no oco do mundo, deu um tiro tão danado, que lascou o cano. Samarica disse:
– Lascou, Capitão?
– Lascou, Samarica. É, mas em redor de sete légua, não tem filho duma égua que num tenha escutado. Prepare aí a meladinha, ah, prepare a meladinha, que o nome do menino… é Bastião.